Devocional

Largue o cântaro!

O caminho era extenso e ao longo dele, muitas vezes ela mesma se questionava o porquê de estar fazendo aquilo; escolhendo a maneira mais difícil, o horário que mais a castigava e todos os dias, repetir a rota da vergonha e da exclusão. Poucos minutos depois ela balançava a cabeça e tratava de dar fim aqueles pensamentos. Segundo ela, merecia aquilo. Jamais poderia se dar ao luxo de retirar água nas primeiras horas da manhã acompanhada de outras mulheres. O peso do cântaro somado ao calor escaldante se tornavam suportáveis se comparados ao peso das acusações e a da arrogância com que sempre era tratada.  É isso. A culpa é minha. Eu fiz por merecer. Cabe a mim me ajustar. O sol é o de menos. Era meio-dia.

A viagem Dele também era longa. Em todos aqueles anos, Ele foi o primeiro a não cortar caminho ou desviar-se da rota. Seus discípulos quiseram convencê-Lo, persuadi-Lo e até mesmo confrontá-Lo.

– Mas, Mestre, não podemos… Na verdade, não devemos! Podemos dar a volta. É realmente necessário passar por lá?

Ele não deu ouvido a nenhum dos argumentos. Seu semblante não se parecia nenhum pouco com o de alguém que estava prestes a pisar no território de um povo considerado impuros por muitos. Olhava para o céu e, como sempre, conversava com o Pai. Quem o via mais de perto poderia até dizer que estava realmente empolgado com aquilo. Afinal, estava mais uma vez indo fazer o que de melhor sabia: encontrar em meio ao lixo a verdadeira identidade de todos aqueles que cruzavam Seu caminho. A temperatura era insignificante perto do calor que queimava em Seu coração. A distância geográfica era mínima em comparação a extensão da Graça que estava prestes a ser revelada. Um desentendimento que perdurava gerações, não era empecilho algum quando aquela mulher estava a poucos minutos de ser totalmente preenchida por um Amor que vinha buscando ao logo da vida toda. Era meio-dia. O Sol não importava. Ele era persistente. Continua sendo. Ele era Jesus.

No poço, um encontro. Dele, um pedido:

– Dá-me um pouco de água.

Ela o encarou por alguns minutos. Olhou para trás e se certificou de que Ele havia realmente falado com ela. Ao invés de dar água, pediu-lhe explicações:

– Como Você, um judeu pede de beber a mim, que sou mulher samaritana?

Novamente, Ele passou por cima de todos os argumentos. Já tinha feito aquilo mais cedo e não iria desistir tão facilmente. Ao receber mais uma pilha de impossibilidades, devolveu uma solução ainda mais clara:

– Quem beber desta água voltará a ter sede; mais quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.

Desesperada, ela tratou logo de pedir a tal água a Ele. Era a realização de um sonho. Não ter mais que percorrer aquele caminho; ficar livre do calor, do caminho extenso, das acusações e dos olhares. Foi então, que uma única pergunta começou a trazer a tona todo o peso, toda a culpa, tudo aquilo que ela carregava não somente quando ia ao poço tirar água, mas sempre que acordava ou ia dormir:

– Vai, chama o teu marido, e volte aqui.

Lembrou-se, então, das cinco tentativas. Das cinco falhas. Das cinco vezes em que depositou todas as suas expectativas em pessoas e não foi reembolsada. Havia algo diferente Nele. Algo dentro dela dizia.

-Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.

Eu daria tudo para ver a expressão de Jesus quando Ele ouviu essas palavras. Entre todos os samaritanos que estivessem buscando a Deus, tinha de ser uma mulher? De todas as mulheres que demonstravam ter sede de Deus, tinha de ser uma divorciada cinco vezes? A pessoa mais insignificante da região? É notável. Jesus não revelou esse segredo ao rei Herodes. Nem pediu uma audiência no sinédrio para falar sobre as boas novas. Não, foi sob a sombra de um poço localizado em uma terra rejeitada e diante de uma mulher execrada. Então Ele sussurrou o segredo.

– Eu sou o Messias!

A frase mais importante deste capítulo costuma ser negligenciada: ¨Então, deixando seu cântaro, a mulher voltou à cidade e disse ao povo: Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito. Será que ele não é o Cristo?¨(João 4:28-29).

Não deixe escapar o drama daquele momento. Olhe para os olhos dela, tão admirada com tudo aquilo. Ouça-a e veja como ela luta para encontrar as palavras certas: ¨O-o S-s-senhor é o M-M-Messias!¨ E sai correndo, quase cai, mas consegue se reequilibrar na direção da sua terra natal. Você reparou no que ela esqueceu? O cântaro de água. Ela deixou para trás o que lhe pesava tanto e fazia com que seus ombros se curvassem. Ela deixou para trás o jugo que carregava.

De repente, a vergonha dos casos amorosos fracassados desapareceu. De repente, a insignificância de sua vida foi ofuscada pelo significado do momento.

¨Deus está aqui! Deus veio! Deus se importa… Comigo!¨. É por isso que ela esqueceu o cântaro. É por isso que ela correu na direção da cidade. É por isso que ela agarrou a primeira pessoa que viu pela frente e anunciou sua descoberta: ¨Acabei de falar com um homem que sabe tudo que fiz na vida. E mesmo assim, Ele me ama!¨.

Os discípulos ofereceram comida a Jesus. Ele recusou, estava entusiasmado demais! Acabara de fazer aquilo que sabia fazer de melhor: ele resgatara uma vida que estava sem direção e colocara no rumo certo… Quem consegue comer numa hora dessa?

Um encontro, para ela inesperado, mas no Céu perfeitamente planejado, a fez receber o que tanto buscava. Bebeu daquela água e foi além: se tornou uma fonte a jorrar para outros. Sedenta durante tanto tempo, agora, era capaz de apontar para muitos o caminho de um poço com Água infinita. Na cidade, não escolheu palavras bonitas e nem planejou um discurso; deixou com que a própria vida ilustrasse (ou pelo menos tentasse) o tamanho da Graça que a encontrou. Testemunhou. Contou. Abertamente.

– Larguem os cântaros! Venham comigo! Descobri uma água que não pode ser armazenada nesse poço ou em qualquer outro.

Deixou que suas cicatrizes fossem a prova de uma conversa que pra sempre transformou quem ela era. E ainda que para alguns elas fossem vergonhosas e dignas de pena, daquele dia em diante elas seriam uma evidência do Amor que nos leva a deixar nossos cântaros e gritar pelo mundo afora: Ele é a água! Ele é a fonte! Ele é Jesus!

Pedro Gaspar

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  • Nathália
    fevereiro 1, 2017 at 11:49 am

    Que texto maravilhoso! Louvado seja o Senhor!

  • Caroline Ramos
    fevereiro 8, 2017 at 4:24 pm

    Amei <3
    Que Deus continue te usando e abençoando!