Beleza Devocional Garotas

Mulheres

 

Para alguns, objeto, fonte de satisfação carnal. Olhares a acompanham, somados à comentários e cantadas baratas. Privacidade invadida, dentro do transporte público, muitas vezes sem saída, corpos a encostam, corpos a contemplam. Para outros, forte, guerreira. Ao mesmo tempo, sexo frágil, sensível, reprimida, sem voz. Curvas, sabedoria, necessidade de ser amada, preenchida, olhada, ouvida.

Para Analice, personagem fictício desta história, confusa. Ser mulher é um paradigma para quem está deixando de ser menina e abraçando a ideia de ser mulher. Madura. Maturidade é necessário. Salto alto? Estereotipo. Revistas? Estereotipo.

Ela acordou atrasada, cansada, moída após um dia anterior cheio de compromissos. Tinha cinco minutos para sair de casa, escolheu a primeira roupa, engoliu seu café e correu para o trabalho. Mais um dia. Rotina. Como pessoas diferentes conseguem conviver no mesmo lugar? É difícil. Piadinhas, falta de respeito, seguraram a porta para ela entrar, deram a preferência no elevador. Legal, sorriu.

Não foi com a sua melhor roupa, seu cabelo estava oleoso, as unhas sem fazer por não estar com tempo, uns quilinhos a mais na sua TPM. No almoço, o que comer? “Peço a sobremesa ou não?”. Ganhou uma flor no restaurante. Achou legal porque durante o dia viu tantas coisas fofas ao seu redor e mesmo indiferente, atingida. Feliz, com a flor, anda na rua e acredita na sua importância, enquanto os homens de uma construção a secam, comentam. “Novidade, não é em um dia comemorativo que as pessoas mudam”, ela pensa.

Foi preciso abrir mão das aulas nesse dia. Lavar o cabelo, fazer as unhas, tirar um tempo para ler, para rir, para assistir uma série talvez, e apreciar o casal que entre joguinhos de conquista, se amam, brigam, se amam de novo, ela comemora e inventa um romance na sua cabeça. Como será seu casamento?

Analice acha legal colocar o roupão rosa clichê, a tolha na cabeça e inventar alguma coisa para passar no rosto. Se sente mulher, se sente bem. Ao mesmo tempo, um desânimo bate. A vontade do silêncio gritou dentro dela e nada pareceu mais atrativo do que estar em casa. Quieta. Sem pensamentos, sem conversas, opiniões… O problema é que os pensamentos não a deixam um segundo se quer.

O Facebook está cheio de mensagens, discussões, parabéns, feminismo, machismo, valorização, desvalorização. Entre tudo, a convicção que Analice chega é de que é preciso entender o espaço. O espaço da mulher, o espaço do homem. Existe homem sem caráter, desrespeitoso. Existe mulher sem caráter, desrespeitosa. Os dois possuem lugar na sociedade, os dois se complementam. Além de mulher ser mulher e homem ser homem, Analice é Analice, Bianca é Bianca, Patrícia é Patrícia, cada um com suas características, talentos, vontades e corpos. Estereótipos não os definem, nem movimentos, nem frases em cartazes, nem jargões na boca do povo.

Muitas mulheres foram feridas, ouviram palavras que machucaram, foram abandonadas, deixadas, traídas, trocadas.  Analice também. Há uma barreira de proteção. A força da mulher não deveria ser a que revida marcas profundas por meio de gritos, atitudes expressivas e apelativas muitas vezes. Gritar que é completa, bem resolvida, independente e poderosa não traz realidades que não existem dentro de você. É preciso externar o que é interno, e não o que todos repetem.

No fim, no auge da explosão dentro de sua própria cabeça, Analice só precisou ouvir uma voz. Era a única que ela precisava o tempo todo. A flor que ganhou? A voz soprou no seu ouvido sobre uma mulher que estava passando na rua e precisava mais do que ela.  “Ei, essa flor é para você. Jesus quem te deu e quer lembrar o quão linda e amada você é”.

A voz também dizia para ela:

 “Vinde a mim todos os que estais cansados de carregar suas pesadas cargas, e Eu vos darei descanso”, para o dia cansativo e explosão de pensamentos.

Dizia também “Tu és toda formosa, meu amor, e em ti não há mancha”, para sua baixa autoestima e condenação.

A voz dizia que sonhava com Analice antes mesmo do seu nascimento.

A lembrou de que do seu sacrifício que é bem mais valioso e eterno do que uma flor. Uma cruz de madeira e mãos furadas. Mesmo assim, ainda dizia que ela é mais bela e formosa do que o lírio dos campos e que nem as estrelas do céu são capazes de conter o seu amor. Que os planos, trabalho, estudos, cansaço ficam mais leves quando segura nas mãos dele. A lembrou de que ninguém é como Ele e ninguém é capaz de apenas com um simples olhar ou sopro trazer à tona motivação, alegria, paz e amor. A voz a lembrou de um amor que sempre existiu, que preenche, que limpa feridas e manchas.

Eu sou Analice, você é Analice. A voz é de Jesus, que te vê além do véu que esconde teus olhos. Que nos veste de branco. Que tira a acusação. Que te ama, te aceita, te deseja do jeito que você é.

Para uns, para outros, para Analice, tanto faz.

Para Jesus, você é a perfeita criação, mulher. Seu valor é inegável e sua formosura arranca suspiros do Rei.

 

Deixa Ele te enxergar. Por trás da capa, da armadura, do salto alto, da independência e da capacidade. Deixa Ele desamassar. O seu cabelo, as suas roupas e esse coração, passado a limpo tantas vezes, manchado de tinta, de decepções e das lágrimas que você derramou antes de dormir. Deixa Ele entrar. Escalar esse muro, essa fortaleza construída durante noites e noites, por inúmeros relacionamentos e pelo medo de se decepcionar. Ele não é como os outros, aliás, nem desse mundo Ele é. Veio do céu e quer guardar o seu coração lá, com Ele. E quem se atrever a querer entrar novamente, que pegue a chave com Ele! (Pedro Gaspar)

 

Ps: O nome Analice simplesmente surgiu na minha cabeça. Depois do texto, busquei seu significado.

“Do hebraico: significa “graciosa e de qualidade nobre”, “presente nobre”.

Stefanie Sterci

You Might Also Like...

  • Jazz
    março 9, 2017 at 1:21 am

    Sensacional!

  • Vitor Claus
    março 9, 2017 at 5:20 pm

    Analice…Bianca..Patrícia… O pai vê a filha, o marido vê a esposa, a academia vê a estudante, o mundo vê a blogueira, a palestrante, a empresária, a voluntária, a missionária, a cidadã exemplar.
    Para além das identidades…a mulher! E quem a vê melhor que Cristo seu Resgatador?
    Parabéns pelo seu dia? Mais que isso! É preciso primeiro entender tudo o que Deus deixou-nos a interpretar antes do elogio. Senão vira vacuidades. Por isso elogios de homens na rua não alcança, não toca, não move nada, Pelo contrário, invade, incomoda, desalinha os fenômenos; Pra que pra que ela se sinta especial é necessário que o outro que a elogia também seja especial. Você acha que elas se sentem lindas ouvindo isso de operários? Se sentem inteligentes ouvindo isso de mendigos? Quando isso acontecer elas mesmas comprarão seus chocolates e rosas! Entende? Interpretar é o que a nós homens resta!
    Para entender uma mulher é preciso saber que o feminino é letra. Antes de ler é preciso saber escrever. Um vocabulário que alterna desde a ausência de sentido de um “talvez” à lucidez do “para onde vamos?” Sua fala, muito além da literatura, tem acessórios e tem cheiro; Um fluxo em espiral; Superlativa, sintética, teológica, labiríntica, noética. Às vezes uma fonética inaudível perdida em olhares de canto, ajeitadas de cabelos, sorrisos para o chão. Mulher vindo é prosa. Se escreve. É também aquilo que olhamos e deixamos ir; olhamos e não fazemos nada. Partindo ela, deixa a vaga no espaço, suas formas no quarto, as cores do mundo num quadrado. E não é que brilha o sol?
    Para entender uma mulher você tem que voltar à infância. Pegar a mão da menina, liderar a brincadeira e diverti-la. Se quiser fazer uma mulher voltar; não pergunte. Mova-a por todos os lados. Inspire. Mulheres não gostam de controle; mas amam um gostar direto; não gostam de histórias sem um ponto final, mas amam o sabor das reticências!
    Para entender uma mulher é preciso manjar de música; entender algo de ritmos, para ver que mulher se move ora a três quartos, ora a doze oitavos. Mulher é boa música flamenca; El Toro, maestral, Paco de Lucia. Se exige mãos firmes, precisão e ritmo cadenciado; é preciso boa introdução. Como uma boa Rumba espanhola, o começo de uma mulher é quase sempre do meio pra o final.
    Para entender o feminino, saiba que a mente de uma mulher é relacional; se expande entre pessoas, seres e fenômenos, não entre objetos e coisas. Portanto; mais do que chãos, cortinas, armários, divisórias, máquinas, computadores, agendas e trabalho; importa mais sua presença, o futuro, a história, abraços, famílias, restaurantes, carinho, meia luz, beijo na testa, flores, mãos dadas, intimidade, elogios, toque, cheiro, risadas, massagens, sonhos, pés na areia, pôr do sol ao seu lado”.
    Para entender uma mulher você precisa ir com ela; Deitar na grama e procurar desenho nas nuvens. Acessar lugares onde somente se é possível chegar com a coisa lúdica, olhar transcendental e mente afiada. Você precisa se relacionar com tudo aquilo que está ao seu redor; ir para além do concreto e previsível e inundá-la com seus próprios sonhos
    Para entender uma mulher, saiba que ela não é nada antes de seu encontro com seres e mundos. Por que vocês acham que elas gostam tanto de histórias e narrativas? Elas sorriem, choram, testam, irritam, provocam, entortam e desentortam, na esperança de que haja um ser mais real do que eu e você que faça sua vida parecer um pouco mais com seu livro favorito. Suas queixas, bloqueios, birras e interrupções, não são inteiramente culpa delas, são apenas um reflexo da sua carência em ser penetradas pelo amor intenso.
    Para entender uma mulher você precisa domar a arte das miudezas, pra ver que nem sempre ao conversar uma mulher quer seus conselhos, às vezes ela quer apenas seus ouvidos. Que nem sempre o que ela diz é o que ela realmente quer dizer. E que se disse “não”, foi por que você talvez tenha perguntado. Suas palavras ditas, nem sempre são verdades imutáveis, mas qualquer coisa que ela esteja a sentir naquele momento; apenas o som dos seus sentimentos flutuantes presentes. Elas não são mentirosas ou incoerentes, apenas compartilham emocionalmente a coerência lógica dos seus fios de cabelo; sempre os mesmos, porém nem sempre igualmente arrumados.
    Enfim, se quiser entender uma mulher, saiba que o feminino é tudo aquilo que “fica” e tudo aquilo que nunca se estabiliza. Então, a última coisa que você deve fazer é perguntar.Elas não sabem explicar a si mesmas. Talvez elas falem algo que não é bem certo; talvez elas salteiem entre conceitos e definições. Mulheres não mentem, só alternam entre verdades. Portanto, se quiser liberar o feminino em uma mulher, não censure, se delicie com ele. Com mulher é preciso ter ginga e percepção fina, ouvidos para ouvir e mãos para acariciar; A melhor maneira de arrancar algo dela é esquecer a fala e usar a pele;com ritmo, cheiro e toque passional. Nada da coisa tem a ver com “tomar nota”, mas sim com o chegar mais perto e sentir a dois. Afinal, a comida só tem sabor na boca de quem prova. A textura só é sentida pela mão que toca. É por isso que com mulher não se pergunta. Com mulher se dança!
    Parabéns pelo seu dia…dias seus.

  • Ariane Moreno
    março 15, 2017 at 4:08 pm

    Nossa, que texto incrível!